quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Memorial

Se estivesse vivo, Gabriel completaria hoje 27 anos, mas ele se foi aos 24 anos, para registrar a data, publico um texto de sua autoria.
Memorial
de Gabriel Bittencourt Xavier (em memória)

Lembro-me do primeiro dia, ainda que não com total exatidão. Minha mãe deu o uniforme para que eu me vestisse e levou-me para a escola.
Hoje, já crescido, não entendo direito a razão daquela mescla de medo e nervosismo, sendo que já havia passado por algo assim na creche. Sei que fui tomado por um intenso pavor quando minha mãe me abandonou do outro lado daqueles portões verdes. Ao menos, foi assim que me senti: abandonado. Fiquei lá dentro olhando para ela até que os portões se fechassem, sem entender o que se passava, sem saber por que eu estava ali. Tentei voltar algumas vezes, mas ela empurrou-me de volta para dentro; não me lembro se cheguei a chorar. Lembro-me sim, de sentir-me perdido e desamparado mas, na falta de algo melhor, segui as ordens da inspetora, que apontou para trás e mandou-me ir procurar a minha classe. Segui na direção em que o dedo apontava.
Além do uniforme, as crianças usavam cartões coloridos pendurados ao pescoço, cada cor correspondia a uma classe. Não me recordo bem a cor do meu, mas ainda persiste em minha memória o momento em que uma menina, no meio de outras tantas crianças, chamou-me dizendo (tinha visto o cartão em meu peito) que aquela era minha classe, ou seja, já não estava tão perdido. Senti-me um pouco mais aliviado.
Não me lembro bem dos tempos que se seguiram a este primeiro contato com a escola; para ser sincero, não me lembro de quase nada. Lembro-me apenas de alguns momentos, talvez, aqueles que mais me marcaram.
Lembro-me (ainda na primeira série) da primeira prova que tive. Posta em cima da mesa, eu não sabia o que fazer com ela. Toda aquela situação era ainda nova para mim, não conhecia ainda as pequenas e grandes convenções de uma escola. Olhei para o colega ao lado na esperança de que ele soubesse o que fazer e fiquei olhando, tentando entender o que ele estava fazendo. Não deu tempo. Sem que eu nem percebesse, a professora pegou minha prova e me deu um monte de broncas, chamando-me de engraçadinho, dizendo que eu não podia colar. “Colar?” – pensei eu meio confuso, meio indignado” ... mas eu nem tenho cola!”
Devolveu-me a prova, avisando de que a próxima vez eu ficaria sem ela. Crente de que havia sido acusado injustamente, pois não havia sido capaz de associar os fatos, voltei a olhar para a prova de meu colega. Não queria colar (nem sabia o que era isso, não sabia nem o que era uma prova ou que finalidade tinha), não queria copiar, queria apenas entender o que era para ser feito para poder fazer eu mesmo.
Veio a professora. Pegou-me pela ponta inferior da orelha esquerda ao mesmo tempo em que se aproximava com a boca e gritou bem alto: - VOCÊ É SURDO? EU NÃO JÁ FALEI QUE NÃO ERA P´RA COLAR? – Ainda me lembro da dor que senti no tímpano e das gotas de saliva em meu ouvido.
Fiquei sem a prova. Restaram-me apenas um misto de raiva e perplexidade, um lápis na mão e uma mesa vazia.
Mais tarde acabei descobrindo o que se deve fazer com uma prova e qual é o sentido figurado do verbo “colar”. O que também não quer dizer que me tornei um bom aluno; ainda não entendia qual era a função de uma escola e nem o porquê de eu estar ali. Achava que era um lugar de brincadeira, o que custou inúmeras outras broncas e, de brinde, vários bilhetes para casa, que eu escondia ou, por vezes, adiava o máximo que podia para entregar a minha mãe.
Não era um dos piores alunos (dos mais bagunceiros), mas também não era dos mais quietos; abaixo de mim havia ainda os vândalos, os briguentos e os declamadores de palavrões (alguns os sabiam do A ao Z); acima, estavam os CDFs.
Quando se aproximava a reunião de pais e mestres, eu me reunia com outros alunos para dividirmos nosso medo. A reunião era o momento de professores contarem aos pais a nossa indisciplina, até os considerados bons alunos ficavam receosos. Às vezes mandávamos alguém que fosse perito na arte da “espionagem escolar” para ver o que estava acontecendo. Sempre voltava dizendo algo do tipo: - Eu vi a professora dizendo tal e tal coisa p´ra uma mulher assim e assim; acho que era a mãe do Fulano.
Uma vez (terceira série), lembro-me, insistiu minha mãe numa certa inventividade : quis tornar lápis e borracha inseparáveis, grudar um no outro.
Então, fez um pequeno furo numa extremidade da borracha em que amarrou a ponta de um barbante. A outra ponta, colocou entre a extremidade superior do lápis e uma tira de esparadrapo, enrolou, e lá fui eu com o lápis amarrado na borracha. Na escola, senti vergonha; achei que todos fossem tirar sarro; tirei o lápis do estojo e fiz de tudo para esconder aquela borracha pendurada. Até que esta sendo fácil. Pelo menos até o momento em que a professora começou a ditar a lição: tive de escrever.
Não sei por que não pensei em pedir um lápis emprestado. Desfazer a inventividade também não podia: se desgrudasse a borracha do lápis, mesmo que conseguisse grudá-los novamente, minha mãe perceberia, pois eu não seria capaz e nem teria tempo (entre o sinal da saída e o portão em que ela sempre me esperava) de refazer perfeitamente tal engenhosidade.
A única solução que me veio foi esta: com uma das mãos (a direita) escrevia; a outra, mantinha-se cerrada para esconder a borracha a um palmo de altura do caderno; ao lado, encostada e acompanhando todos os movimentos da mão que escrevia. Não sei se descrevo bem, pois não é uma cena muito comum. Tanto que, depois de algum tempo, a professora parou de ditar para chamar minha atenção: - Gabriel, o que tanto você segura esse lápis? – Nada, professora, - respondi.
Pensava ela que eu estava segurando o lápis com as duas mãos, não imaginava que, na verdade, era uma borracha e um pedaço de barbante.
Senti muito medo, pois estava preste a ser ridicularizado por todos. Cheguei a pedir a Deus que desviasse a atenção dela para alguma outra coisa. Ela, antes de voltar ao ditado, mandou que eu soltasse o lápis.
Não soltei.
Nem dois minutos se passaram para que ela falasse: - Gabriel, mandei soltar o lápis.
Soltei. Dessa vez não me atrevi resistir-lhe a ordem. Pensei: “É o fim. Nunca mais vou querer voltar a esta escola”.
Eis que me enchi de surpresa quando uma menina ao meu lado disse, os olhos brilhando: - Que legal! Foi tu que fez? – Menti: - Foi. Outros chegavam curiosos e diziam: - Deixa eu ver, deixa eu ver.
Dessa vez a professora teve de chamar atenção dos outros: - Ei, ei, ei, todo mundo voltando p´ro seu lugar. Continuou o ditado.
No final da aula vieram falar comigo. Uns perguntavam como eu havia feito. Outros pediam para que eu fizesse um igual para eles. No dia seguinte, vi que três ou quatro alunos haviam adotado a tal inventividade. Depois de uma semana, acho que oitenta por cento da classe tinha a borracha pendurado no lápis.
Quis dar risada, mas contentei-me em sorrir e bendizer a minha mãe em pensamento.
Na quarta série, tive uma professora de quem gostei muito, chama-se Marina.
Marina era o tipo de professora que sabia exigir o respeito sem usar de autoridade. Além disso, sabia como ensinar, sabia como motivar e incentivar um aluno. Gostava muito de passar exercícios de redação.
Certa vez, distribuiu gibis e revistas e pediu que recortássemos uma figura a qual achássemos interessante. Eu, que havia pegado um gibi, recortei um quadrinho em que o Cebolinha tirava uma cebola da geladeira. Então, quando todos já haviam feito sua escolha, a professora disse para colarmos a figura na parte superior de uma folha e escrevêssemos uma história sobre ela.
Posso dizer, de modo resumido, que minha história era algo assim: De repente a cebola começa a tremer na mão de Cebolinha. Assustado, ele a deixa cair no chão e repara que ela está crescendo, crescendo, crescendo; de repente cria braços e pernas; Cebolinha consegue distinguir olhos nascendo na cebola. Depois, ele e seu pai, tinham de se virar dentro da própria casa, fugindo e ao mesmo tempo lutando contra uma cebola gigante. A casa acabava destruída, mas eles venciam e tudo terminava bem.
Marina gostou.
Vieram outras histórias e sempre devolvidas com um ótimo, parabéns, excelente. Mas, sobretudo, o mais importante para mim, foi ouvir Marina dizer que um dia eu até poderia ser um grande escritor.
A quinta série foi mais ou menos uma linha divisória. As coisas eram diferentes. Não havia mais um só professor, mas vários: um para cada matéria. E até estas eram diferentes: algumas já não existiam; outras, novas, surgiram.
Logo no primeiro dia, uma senhora (a coordenadora) subiu em cima de uma cadeira e fez um discurso autoritário dando-nos as boas (ou as más) vindas. Tal autoritarismo, com o qual eu já havia tido alguns contatos nas séries anteriores, seria um dos motivos com o qual eu me revoltaria mais tarde.
Até o primeiro colegial, as coisas foram mais ou menos todas iguais. Nada houve que me marcasse, merecendo, assim, ser registrado neste memorial. As notas foram quase sempre boas; não as melhores, mas quase sempre boas. Na diretoria, fui parar raras vezes, quase todas por briga, ou para minha defesa, ou em prol da defesa de um amigo (sempre há aqueles alunos mais abusados, que gostam de se aproveitas dos mais quietos). A festa de formatura foi uma festa como outra qualquer, um pouco maior e mais pomposa apenas; a coisa mais divertida, creio eu, foi quando subi no palco para pegar o diploma e tropecei nos degraus (que estavam soltos e haviam sido postos ali só para a ocasião). Lembro-me agora, afetuosamente de um fato: o olhar de carinho da professora que me entregou o diploma, os parabéns e o abraço; deu-me aula de português, não me lembro o nome.
Lembro-me também de que gostei muito de encontrar, na festa de amigo secreto da classe, a professora de música. Era a primeira vez que via e conversava com uma professora numa situação tão informal. Comia os doces, bebia refrigerante e trocava presentes como se fizesse parte da gente e, na verdade, fazia; todos gostavam muito dela e eu também. Quem visse, diria até que era uma aluna mais velha. Lembro-me de que a própria classe se reuniu para convidá-la. Talvez seja uma das únicas professoras de quem eu tenha saudades.
O Ensino Médio foi difícil. Tive que começar a estudar, coisa que nunca antes havia feito; na minha época, em escolas públicas, não se precisava muito disso.
Mas essa não era a única dificuldade.
Os professores eram frios e indiferentes. Eram também muito autoritários e não tinham o menor respeito pelo aluno. Os compararia àquela professora da primeira série, mas ganhariam em displicência e maldade. Não tinham respeito e, além disso, me parece que sentiam prazer em nos humilhar perante a sala de aula (é claro que não me refiro a todos, havia exceções).
Lembro-me de que um deles (o de matemática) chegou a passar trezentos exercícios para serem feitos num final de semana. Outro fato que me revoltou foi ser chamado de palhaço porque estava vestido com uma camisa de rock preta com letras verdes, no terceiro dia de aula; não havia ainda comprado o uniforme.
Depois de um tempo, passei a não aceitar mais esses abusos de autoridade. Respondia para os professores, discutia com eles, tornei-me definitivamente um mau aluno. Estava lá para estudar, pensava eu depois de alguns anos, ou, no mínimo, tentar ganhar um diploma e me ver livre de todo aquele abuso.
Explicando-me melhor: no começo, eu ainda queria estudar. Mas logo percebi que o único jeito de estudar sem ter dores de cabeça era dando uma de santo e puxando o saco de todo mundo. Mais tarde resignei-me a querer apenas um diploma e fazer o mínimo possível para consegui-lo. As visitas à diretoria tornaram-se algo cada vez mais freqüente, diria até que corriqueiro. Mais tarde perdi totalmente o interesse e comecei a entregar as provas em branco, bolar aulas, faltar simplesmente, até chegar o dia de dizer para minha mãe: - Não vou mais para a escola.
Desisti uma vez um pouco antes do final do ano. No outro ano, desisti na metade. Num outro ano cheguei a ser expulso. Até que me decidi: parei de estudar e fui procurar um emprego.
Mais tarde fiquei sabendo que duas das autoridades de alguns dos colégios por que passei estavam sendo processadas, uma delas por ter agredido um aluno fisicamente, outra por ter agredido outro verbalmente, o que me consolava, pois já começara a me convencer de que eu era uma aberração no meio escolar, além do alívio que me causava a satisfação de um pouco da minha sede de justiça.
O fato é que estava completamente decepcionado com o sistema de ensino das escolas públicas. Mas, às vezes, não sabia se o problema era meu ou se era mesmo do tal sistema.
Um dia, deprimido e sem esperanças, já convencido de que não havia jeito para mim, vi passar na televisão o anúncio para as inscrições do Telecurso 2000. Achei que talvez fosse a saída e fui me inscrever.
Voltei a estudar e vi que não estava errado: as coisas lá eram muito diferentes. Havia pessoas de todos os tipos, donas de casa, mães de família, senhores e senhoras idosas e, sempre, gente muito humilde. O que me deixava mais à vontade, pois não precisava ficar escolhendo as roupas antes de sair de casa, correndo o risco de ser mal falado pela superficialidade dos outros alunos. Não havia mesmo a necessidade do uso de uniforme.
Havia uma única professora para cada classe, o que me fez lembrar de meus primeiros anos na escola. A nossa chamava-se Georgina e era muito doce e atenciosa.
Os livros eram emprestados para os alunos que não tinham condições de comprar. As aulas eram dadas através dos vídeos do Telecurso. As provas, os alunos faziam quando se achavam aptos a fazê-las. Se me lembro bem, tinham de pagar doze reais por cada uma. Mas, de certo modo, eu tive sorte: houve uma bateria de provas promovida pelo Estado, o que me possibilitou terminar os três anos em um só dia. Mais tarde mandaram-me o diploma de supletivo pelo correio.
Hoje estou na faculdade, o que é para mim uma nova etapa de vida. Escolhi o curso de que mais gosto para que os momentos de estudo sejam mais um prazer do que um suplício. Pretendo me dedicar o máximo para que possa não apenas ganhar um diploma, mas também aprender. Quem sabe, daqui a quatro anos, eu não seja um bom professor, daqueles que têm total domínio da matéria que ensinam! Pelo menos, é isso o que pretendo.

Comentário da professora ao texto:
Gabriel,
Seu percurso deve ser lembrado como “modelo” daquilo que um bom educador não deve seguir.
Com certeza, sua volta aos estudos, mais amadurecido, mostra a oportunidade de reflexão sobre o caminho a seguir como um educador que auxilia seus alunos a construírem conhecimento.
Elita

Buscas no google:
FUVEST 2004 Convocados para Segunda Fase
6433603 GABRIEL BITTENCOURT XAVIER

VIII CONCURSO INTERNACIONAL DE PRIMAVERA
Aguardem para os próximos dias a mala direta pelo correio com a proposta financeira para a edição dos Livro "Luz e Sombra" ARNALDO GIRALDO
POESIA
17.o LUGAR Gabriel Bittencourt Xavier

3 comentários:

Florimari disse...

Gabriel hoje encanta os anjos com suas redacoes e contos.
Abracos!

Flori

Vania San disse...

Realmente, um belíssimo texto!
Os bons morrem jovens...

Beijos amiga!

vc 51, eu 31 em breve.

Vania San disse...

Gostei muito das novidades, mas não dá para comentar lá né?

rsss

Beijos estou acompanhando!

Os 11 mandamentos da FLY (Finally Loving Yourself) Fonte: Chega de Bagunça
1. Mantenha sua Pia Limpa e Brilhando.
2. Vista-se toda manhã, mesmo que você não sinta vontade. Não esqueça de colocar os sapatos (de amarrar).
3. Faça suas Rotinas da Manhã e as Rotinas da Noite (aquela antes de ir para a cama) todos os dias.
4. Não deixe o Computador te distrair(Ops!!!).
5. Observe as suas atitudes. Se você tirou algo do lugar, coloque de volta.
6. Não tente fazer dois projetos de uma vez. UM TRABALHO POR VEZ.
7. Não tire para fora coisas que você não pode devolver em menos de 1 hora.
8. Faça alguma coisa por você todos os dias. Talvez a cada manhã ou noite.
9. Trabalhe o mais rápido que você puder. Isto te dará mais tempo para se divertir.
10. Sorria, mesmo quando você não estiver disposta. Um sorriso é contagioso. Faz sua mente ficar feliz e você será feliz
11. Não esqueça de rir (gargalhar) todos os dias. Mime-se. Você merece isso!!!